Realidade na ficção: o cenário do Ensino Superior no Brasil
Felipe Pena, autor de obras da trilogia do Campus, aborda em Fábricas de Diploma aspectos da conturbada conduta seguida no Ensino Superior do País e de outros temas socialmente relevantesPor Amanda Pereira
Publicado originalmente com o título de "O analfabeto que passou no vestibular", o romance policial Fábrica de Diplomas (Felipe Pena, Editora Record, 2011, 332 páginas) é envolvente do começo ao fim. Com a temática pouco abordada , o mundo universitário (dividido entre livros, amores impossíveis e festas regadas a drogas e álcool ), o autor faz diretas críticas ao atual mercado educacional.
O enredo num todo envolve a faculdade Bartolomeu Dias, uma das maiores do país. A estudante de farmácia Adriana é misteriosamente baleada no campus da Barra, no Rio de Janeiro. Com ela, encontrava-se um papel amassado, responsável por mudar o rumo de muitos personagens. Essa estranha fatalidade preocupa o reitor - por estarem negociando a entrada de um grupo de investidores estrangeiros com intuito de quitar déficit financeiro - que coloca Antonio Pastoriza (coordenador do curso de Psicologia) para investigar o ocorrido. Nesse percurso, o psicanalista passa por poucas e boas: conflito entre grupos de milícia e traficantes; descrença com a profissão escolhida; desafio em descobrir quem é o tal Doutor, nunca visto por ninguém, mas de principal importância no decorrer da história; e o reencontro com a jornalista e também professora Nicole Barros, uma ex-namorada.
O ponto central, sem dúvidas, é a crítica ao sistema de educação. No entanto, outras temáticas também são apontadas: o papel e a influência da mídia no contexto social; a notícia apenas como produto e a ocultação da verdade - o "showrnalismo"¹ e o objetivo de conquista de prêmios; a troca de favores no meio. Pena detalha também o desempenho dos professores e alunos em sala de aula. Em uma de suas exposições, a professora-jornalista analisa o que acontece quando fábricas de diplomas vigoram a todo vapor:
O curioso título inicialmente dado não foi à toa. Lucas (como se chama o intrigante personagem no livro: analfabeto que passa no vestibular e é aceito na faculdade) realmente existiu². Com seu faro de jornalista-cronista, Felipe Pena aproveitou um fato verídico para criar a história (por isso se aproxima tanto da realidade); sacada inovadora, inusitada e atraente.
Agradável da primeira à última linha, Fábrica de Diplomas provoca sérias reflexões no leitor - a começar pelo título. Mesmo com a quantidade de personagens secundários, tudo ficou amarrado e completo; e a leitura, ainda assim, é simples e dinâmica. O suspense é outro ponto chave, e eleva o interesse.
Caso sinta a curiosidade em ler, atente-se para o fato de que "o livro é uma leitura para corajosos que não têm medo de enxergarem na literatura o grito anarquista, o qual denuncia as injustiças e faz piada com a realidade, desmascara as ilusões e dá um soco no estômago daqueles que acreditam que tudo está normal"³
¹ - Termo empregado por José Arbeux Jr ao falar do tratamento dado à informação, a "notícia com espetáculo.
² - Em 2001 ocorreu o caso de uma faculdade privada do Rio de Janeiro que aprovou um analfabeto no curso de Direito. O fato aconteceu durante uma reportagem ,para comprovar empiricamente o declínio da qualidade do ensino, com base em uma pesquisa elaborada. Para saber mais: http://www.conjur.com.br/2001-dez-10/analfabeto_passa_vestibular_direito_rj
³ - Vilto Reis, site Homo Literatus.
O ponto central, sem dúvidas, é a crítica ao sistema de educação. No entanto, outras temáticas também são apontadas: o papel e a influência da mídia no contexto social; a notícia apenas como produto e a ocultação da verdade - o "showrnalismo"¹ e o objetivo de conquista de prêmios; a troca de favores no meio. Pena detalha também o desempenho dos professores e alunos em sala de aula. Em uma de suas exposições, a professora-jornalista analisa o que acontece quando fábricas de diplomas vigoram a todo vapor:
" Dizia a professora Nicole: “… para a turma de sessenta pós-adolescentes na sua frente. [...] Uma pequena parte, não mais que cinco ou seis estudantes, conseguia acompanhar o pensamento da professora e esboçar algum talento nos exercícios práticos. Outros trinta ou quarenta apresentavam um rendimento mediano, suficiente para passar na facilitada prova final, mas incompatível com o mercado de trabalho, para o qual jamais estariam preparados. E ainda havia o pessoal do fundo, cuja a presença na sala era apenas física, Já que não tinham os instrumentos básicos para a profissão, como raciocínio lógico e um razoável domínio da língua portuguesa”. (pg. 64)A narrativa, embora ficcional, é um retrato fiel - se não bem próximo - da realidade. Os altos investimentos de estrangeiro, o declínio da qualidade de ensino, a facilidade na criação de cursos, o jogo de forças por alunos/clientes, além, claro do "faz-tudo" por poder, são outros pontos levantados por Pena, os quais aproxima e instiga o leitor a se colocar dentro da obra.
O curioso título inicialmente dado não foi à toa. Lucas (como se chama o intrigante personagem no livro: analfabeto que passa no vestibular e é aceito na faculdade) realmente existiu². Com seu faro de jornalista-cronista, Felipe Pena aproveitou um fato verídico para criar a história (por isso se aproxima tanto da realidade); sacada inovadora, inusitada e atraente.
Agradável da primeira à última linha, Fábrica de Diplomas provoca sérias reflexões no leitor - a começar pelo título. Mesmo com a quantidade de personagens secundários, tudo ficou amarrado e completo; e a leitura, ainda assim, é simples e dinâmica. O suspense é outro ponto chave, e eleva o interesse.
Caso sinta a curiosidade em ler, atente-se para o fato de que "o livro é uma leitura para corajosos que não têm medo de enxergarem na literatura o grito anarquista, o qual denuncia as injustiças e faz piada com a realidade, desmascara as ilusões e dá um soco no estômago daqueles que acreditam que tudo está normal"³
¹ - Termo empregado por José Arbeux Jr ao falar do tratamento dado à informação, a "notícia com espetáculo.
² - Em 2001 ocorreu o caso de uma faculdade privada do Rio de Janeiro que aprovou um analfabeto no curso de Direito. O fato aconteceu durante uma reportagem ,para comprovar empiricamente o declínio da qualidade do ensino, com base em uma pesquisa elaborada. Para saber mais: http://www.conjur.com.br/2001-dez-10/analfabeto_passa_vestibular_direito_rj
³ - Vilto Reis, site Homo Literatus.
Otimo!
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