quinta-feira, 24 de abril de 2014

Crônica


Dia de visita

Caroline Pasternack

Dias atrás fui visitar um amigo, com pesar no coração pois ele estava preso. Nesse momento, como de costume, todos os amigos somem ou colocam dificuldades como: Ah! Ele está lá, atrás daquele balcão, precisa passar por aquele carcereiro que nunca sorri e tudo mais. Realmente era mais fácil quando ele estava nas paradas de sucesso ou na lista dos mais vendidos, mas agora ele depende de visitas para ver a luz do sol.

Ah meu grande amigo! Na verdade não entendo o que fizeste para receber tal castigo, você que sempre deu conhecimento, que entreteve, argumentou e agora fica aí, longe do contato, do toque. Passou por tantas mãos, e nem exigia grandes cuidados, já ficava satisfeito em ser importante para alguém. Realmente são misteriosos os caminhos aonde a vida nos leva, mas tenha certeza que sempre haverá alguém ansioso por seus ensinamentos.

Ao chegar em sua prisão, vi poucas pessoas na sala de visitas, sorte dele eu ter vindo! Fui ao encontro do carcereiro que com aquela cara de cansado, me perguntou o que queria, disse o nome de meu amigo e ele foi conferir se ele ainda estava naquela unidade, para minha alegria, sim, estava. Eu poderia ficar com ele ali ou levá-lo por alguns dias, decidi trazê-lo comigo para que tomasse um pouco de ar, acredito que lhe foi agradável, aquelas prateleiras da prisão cheiram a mofo de esquecimento, terrível aliás.

Passei os dias folheado suas páginas, me encantando mais uma vez com sua velha história por mim já conhecida. Quincas Borba não cansava de contar as desventuras com seu amigo Brás Cubas, seu amor pelo cão de nome homônimo ao dele e afirmava com certeza ser santo. Ainda bem que eu já sabia que ele não era lá tão são assim, por isso deixei que falasse até o dia da volta. Sendo assim ele não saberia, há quantas anda os 50 tons de cinza e nem iria dizer que a culpa é das estrelas, é do esquecimento mesmo, é da novidade, que nos lança em teias sociais e novas conexões, mas não se preocupe, eu volto. Há procura de novas histórias e novos amigos, na esperança, meu caro, de um dia te ver livre.

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